Caçula de 10 irmãos e filho de lavadeira e pescador qualifica mestrado profissional na Faculdades EST

Pastor e professor de Fortaleza relata insônia antes de exame e diz que título significa ‘comida na panela’ para a família

No Brasil profundo, onde a linha que separa a sobrevivência da miséria é moldada por uma herança colonial de exclusão, nascer preto, pobre e no interior do Nordeste costuma ser uma sentença prévia. Para a engrenagem que move as desigualdades estruturais do país, o destino reservado a José Ailton de Sousa Filho, 47 anos, seguia o mesmo caminho. 

“Para alguns, realmente, o único caminho seria trabalhar na escravatura social e morrer de trabalhar. Eu não desejo nem quero isso para mim nem para os meus”, desabafa. No final de maio de 2026, porém, José Ailton deu mais um passo para a transformação. Ele foi aprovado no exame de qualificação do Mestrado Profissional em Teologia da Faculdades EST. Uma vitória acadêmica que, na verdade, é a esperança de um futuro ainda melhor.

Ailton nasceu em Morada Nova, no coração árido do Ceará. Caçula de uma família de dez irmãos, cresceu vendo o pai tirar o sustento da pesca e a mãe gastar as mãos lavando as roupas dos outros. Naquela casa de poucos recursos, estudar era um luxo. Das dez bocas que dividiam o mesmo teto, apenas ele conseguiu completar os estudos e romper o cerco em direção à universidade. Casou-se cedo e, enquanto a vida o empurrava para o destino comum de pedreiro ou operário nas olarias locais – profissões que ele faz questão de saudar como dignas -, o cearense escolheu que reescreveria o próprio mapa.

Professor, pastor e gestor

Hoje morador de Fortaleza, divide seus dias entre a sala de aula e o altar. É professor, pastor missionário da Igreja Adventista e gestor de casas de recuperação para dependentes químicos. Graduado em Teologia, licenciou-se em Pedagogia e emendou especializações. Mas o sonho do mestrado precisou esperar o momento em que as contas fechassem.

A chegada à Faculdades EST, de acordo com ele, foi por meio da recomendação de um colega de ministério. Em uma sociedade onde o meio acadêmico muitas vezes ergue barreiras invisíveis de soberba, Ailton encontrou no Rio Grande do Sul o oposto. “Eu decidi ingressar na EST porque senti acolhimento, seriedade e discrição. É uma instituição que aceita ensinar e aprender”, pontua o estudante, cuja pesquisa foca na educação para crianças e jovens, unindo os escritos da autora americana Ellen White às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A aprovação na banca de qualificação foi recebida com a intensidade de quem sabe o tamanho do fardo que carrega nas costas. Como ele conta, foram cinco noites sem dormir, travando uma batalha contra a ansiedade e o fantasma da rejeição. “Quando fui aprovado, senti uma grande emoção, como nascer do meu primeiro filho. Agora, ao passar nessa qualificação, fiquei tão feliz que esqueci até o meu nome”, conta, entre o riso e as lágrimas.

A história de José Ailton é igual a de muitas pessoas, que vê na educação a chance de mudar realidades, não só a dele, mas de toda sua família. “Essa aprovação representa uma vitória completa de uma família pobre do nordeste que sonha em ser alguém”, diz, afirmando que no futuro, a formação significa “comida na panela”.

Agora, a expectativa é completar o Mestrado Profissional, dissertar, defender e sair feliz para grandes conquistas. Segundo ele, o futuro a Deus pertence, mas ele objetiva ser professor de uma universidade e levar a libertação através do conhecimento. O discente da Faculdades EST salienta que projeta ajudar a família para abençoar o lar de onde veio e que constitui.

“Quero estender a mão para aqueles que não puderam completar sua carreira acadêmica, mas que acreditaram em mim e me apoiaram”, enaltece. Ele ainda agradece todas as pessoas que estiveram ao seu lado na caminhada. “Como minha mãe, meu sogro, minha esposa, meus filhos e meus irmãos de sangue. Os professores e as professoras que acreditaram em mim e, acima de tudo e de todos, agradecer ao meu Deus, meu Rei, meu protetor, meu professor e salvador. O Senhor Jesus Cristo.”

O homem que se emociona fácil, é casado com Neide Rabelo e tem dois filhos, Mateus e Marcos Rabelo, ambos cursaram o ensino superior e são dentistas. “Não foi fácil formá-los, mesmo estudando e trabalhando, tivemos que lutar para que eles pudessem estudar numa instituição séria, o Centro Universitário Adventista de Ensino do Nordeste (IAENE), na Bahia”. 

Conforme ele, aproveitar as oportunidades foi o que tornou sua caminhada diferente da de tantas outras pessoas que têm uma história parecida. “Eu tenho desejos, claro, como todo ser humano. Por ser preto e pobre, nunca quis permanecer ignorante por falta de oportunidades. Aproveitei todas as que Deus nos permitiu ter para estudar, para que eu também pudesse, com um pouco de recurso e conhecimento, auxiliar outras pessoas a se libertarem. Porque o conhecimento liberta.”