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Teologia Pública no Brasil e na África do Sul


Teologia Pública no Brasil e na África do Sul

O livro Teologia Pública no Brasil e na África do Sul - Cidadania, Interculturalidade e HIV/AIDS é um dos resultados do projeto estabelecido entre a Faculdades EST e o Centro Beyers Naudé de Teologia Pública, da Faculdade de Teologia da Universidade de Stellenbosch (SUN), uma das mais conceituadas da África do Sul. Depois, outros parceiros passaram a fazer parte do projeto, como a Universidade do Cabo Ocidental (UWC), a Universidade de Kwazulu-Natal (UKZN), a Universidade da África do Sul (UNISA) e a Universidade de Pretória (UP). Segundo o coordenador do projeto Prof. Dr. Rudolf von Sinner, professor da Faculdades EST e também professor extraordinário na SUN, este livro é resultado de três anos de colaboração e conta com autores brasileiros e sul-africanos. “Estamos oferecendo um balanço das nossas atividades a um público mais amplo”, diz ele.

Os primeiros contatos se deram durante a criação da Rede Global de Teologia Pública, em Princeton (EUA), em 2007. Em 2008, houve proeminente participação sul-africana no I Simpósio Internacional de Teologia Pública, realizado na Faculdades EST. No ano  seguinte, com apoio do CNPq (Edital Proáfrica), foram realizadas as primeiras visitas mútuas, exploratórias. De 2011 até 2013, foi realizada uma segunda rodada, com quatro encontros focados no tema da Teologia Pública no Brasil e na África do Sul. “Foram tratadas noções de cidadania e conquistas de direitos, de interculturalidade, ou seja, como lidar com a convivência de diferentes etnias, diferentes identidades, e, ainda, de HIV/Aids, que é um problema muito forte na África. No Brasil é um pouco menos premente, porém aqui as infecções também estão aumentando e, via de regra, as igrejas cristãs não ajudam porque há um estigma ligado a esta doença. Consequentemente, as pessoas não falam sobre ela”, ressalta o prof. Rudolf. Para ele, as igrejas, muitas vezes, ao invés de serem terapêuticas, como deveriam ser, acabam impondo problemas adicionais para as pessoas com HIV/AIDS. Como a doença é associada, na percepção da sociedade, ao consumo de drogas ou à promiscuidade sexual, o fato de alguém ser portador do vírus suscita suspeitas quanto à moralidade do seu comportamento, o que acaba criando o estigma. Por isso é urgente ser tematizado pela teologia.

O projeto surgiu para verificar a presença real das igrejas no espaço público e sua pertinência. “É necessário que as igrejas contribuam no espaço público para o bem comum e para a convivência, de uma forma construtiva. Ou seja, não podem simplesmente querer que as suas convicções sejam agora válidas para todo mundo, elas precisam negociar com os demais campos, outras igrejas, também outras religiões, ou mesmo pessoas sem religião e que visam também a boa convivência na sociedade”, esclarece o prof. Rudolf.

O termo Teologia Pública foi cunhado nos EUA, nos anos 70, e está ganhando notoriedade no Brasil desde 2001, quando foi aberto um programa com este nome no Instituto Humanitas da Unisinos. “Na realidade, no Brasil, trabalhamos mais com os conceitos provenientes da África do Sul do que dos Estados Unidos, porque lá eles trabalharam como uma forma de teologia libertadora, como a Teologia da Libertação, porém num momento mais democrático, quando, além da resistência contra a injustiça, é preciso construir uma sociedade mais justa”, esclarece o prof. Rudolf. Mas como fazer isso? “O que fazer quando a oposição assume o governo, como aconteceu aqui no Brasil? Lula e outros militantes são oriundos de uma onda de teologia da libertação desenvolvida num sistema de repressão, o regime militar. Agora não temos mais repressão, mas ainda temos injustiças”, diz o prof. Rudolf. Segundo ele, são essas temáticas, além da situação social parecida, como a transição democrática e uma enorme discrepância entre poucos muito ricos e um grupo muito grande de pessoas pobres que existe tanto no Brasil quanto na África do Sul, que motivou a realização do intercâmbio. O caminho traçado mostrou também uma expressiva participação de docentes e discentes das referidas universidades sul-africanas no I Congresso Internacional da Faculdades EST, em 2012 (9 participantes) e no II Congresso, em 2014 (15 participantes).

 

Reação do povo africano frente aos desafios sociais

Durante a realização do curso de Doutorado em Teologia Sistemática pela Faculdades EST Felipe G. K. Buttelli teve a oportunidade de permanecer durante doze meses na África do Sul,  na Faculdade de Teologia de Stellenbosch (SUN), para conhecer melhor a relação entre a teologia pública e a teologia de libertação na África do Sul e trazer essa reflexão para o Brasil.

Atualmente, Felipe está realizando o pós-doutorado na Faculdades EST com bolsa PNPD/ CAPES.

“A África do Sul é um país socialmente semelhante ao Brasil, por um lado, mas não deixa de ser um universo completamente diferente. Cultura, língua, história, a característica dos desafios sociais e, por fim, o aspecto teológico e religioso são bastante desafiadores. Stellenbosch sempre foi um reduto da cultura branca elitizada e centro da experiência teológica reformada. Acaba sendo uma caricatura sul-africana das desigualdades sociais e econômicas e da segregação racial, que permanece no espaço público de modo bem marcado”, ressaltou Felipe sobre sua estada na cidade. “Tive dificuldade com a língua predominante, o Afrikaans, mas, por outro lado, tive uma experiência de acolhida humana e comunitária muito profunda, que contribuiu com a minha capacidade de compreender algo sobre a África do Sul”, disse. “Do ponto de vista da minha pesquisa, meu contato humano, histórico e minha observação de como os sul-africanos(as) reagiram teologicamente aos desafios sociais foi fundamental. Acredito que cheguei a algumas formulações e desenvolvi algumas linguagens que não seriam possíveis se não tivesse recorrido aos intercâmbios acadêmicos usuais com o hemisfério norte. Acredito que minha pesquisa desenvolvida em contato com a reflexão teológica sul-africana acabou sendo um pouco experimental de novos links e novos raciocínios teológicos que podem emergir deste encontro intercultural heurístico. Hoje, compreendo que asseverou alguns sensos de pertença ao universo das discussões teológicas de sul, o que caracterizou pra mim um comprometimento político no universo das relações teológicas e epistemológicas globais”, destacou Felipe. 

 

A leitura da Bíblia em comunidades com HIV/Aids

A aluna Elisa Fenner Schröder está na África do Sul, onde deve permanecer por doze meses para realização da bolsa de Doutorado Sanduíche financiada pela CAPES). Ela está vinculada à School of Religion, Philosophy and Classics, na Universidade de Kwazulu-Natal, em Pitermaritzburg, ao leste do país.

Elisa deve se envolver nas atividades realizadas pelo Ujamaa, estudando grupo de mulheres afetadas pelo HIV/Aids, ou seja, nem todos têm o vírus, mas são afetados porque têm algum familiar, filho, amigo, irmão contaminado. “Estou lendo os artigos e livros escritos por eles, para entender a dinâmica do grupo e o contexto social, cultural e político em que vivem as pessoas/grupos acompanhados pelo Ujamaa. Está prevista a inserção nas atividades junto às comunidades (especialmente grupos de pessoas com HIV/Aids). Mas para isso é preciso cautela, pois o grupo tem que permitir a minha participação. Outra questão é a língua, pois nem todos os grupos falam inglês, por isso preciso analisar em quais grupos será possível minha participação”, ressalta Elisa. 

“É o mesmo tipo de pesquisa que a Elisa faz aqui no Brasil, por isso os grupos e sua leitura bíblica podem ser comparados, ela já usou, inclusive, no seu trabalho aqui a bibliografia de um autor sul-africano que será o orientador dela e que fala, exatamente, sobre a leitura popular da Bíblia nesse contexto”, esclarece o prof. Rudolf.

Elisa atua junto a pessoas com HIV/Aids em Porto Alegre e tem como proposta ler a Bíblia a partir do contexto social e cultural dessas pessoas. E, a partir daí, contribuir para o empoderamento delas. “Estar aqui, onde se luta pelos mesmos ideais, e onde a realidade é ainda mais difícil do que a nossa, é uma oportunidade única para mim. Espero conseguir bons resultados para a pesquisa e contribuir para a discussão da temática do HIV e Aids no Brasil”.

Para Elisa, a oportunidade de realizar parte dos estudos em outro país vai além de um bom currículo. “Este período permite conhecer uma cultura diferente ao mesmo tempo em que interagimos com ela, na tentativa de entender como algumas questões foram construídas. Também o desafio da língua estrangeira, afinal o inglês não é língua materna para a maioria dos sul-africanos nem para mim. Faz parte do aprendizado entender e se fazer entender”, conclui.

 

O futuro

A intenção dos professores gestores do projeto é manter a realização das pesquisas em nível de Doutorado e Pós-Doutorado. “Nós queremos no futuro ampliar esse projeto”, ressalta o prof. Rudolf. Ele diz que já estão organizando novos projetos, nessa mesma linha, para submeterem às agências de fomento, como CNPq e CAPES. “Os eventos realizados na Faculdades EST ou na África do Sul sempre contaram com professores e alunos que participaram das discussões, por isso pretendemos continuar trabalhando e também ampliar essa parceria em termo de instruções, de pesquisadores e de intercâmbio”, destaca prof. Rudolf. Já participaram mais ativamente neste intercâmbio os docentes da Faculdades EST Roberto Ervino Zwetsch e André Sidnei Musskopf, bem como os/as doutorandos/as Eneida Jacobsen, Ezequiel de Souza e Elisa Fenner Schröder, além de outras participações mais pontuais. Em recente evento internacional na Universidade de Kwa-Zulu Natal (UKZN) em Pietermaritzburg, estiveram, além do Prof. Roberto e da Elisa, o Prof. Vítor Westhelle, a doutoranda e co-coordenadora do Programa Religião e Gênero da EST, Márcia Blasi, e o doutorando Fernando Albano, assim ampliando e fortalecendo os laços e parcerias.

 

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Teologia Pública no Brasil e na África do Sul – Cidadania, Interculturalidade e HIV/AIDS

O quarto volume da série Teologia Pública propõe um debate comparativo entre Brasil e África do Sul. Tal debate é fruto de uma caminhada longa e intensa, como foi dito anteriormente. A parceria teológica iniciou em 2007, com o lançamento da Rede Global de Teologia Pública. O grupo de trabalho que participou da criação deste texto apresentou três preocupações principais: a noção de cidadania e sua relação com a teologia e com a prática das igrejas; a interculturalidade, enquanto uma categoria fundamental para a compreensão da realidade em países multiculturais como Brasil e África do Sul; e a relação entre teologia, a prática das igrejas e HIV/Aids. Em ambos os países, a relação entre teologia, a prática das igrejas e HIV/Aids ainda é muito mistificada, o que de certa forma estigmatiza a realidade de quem vive com vírus e a doença. O livro foi publicado pelo Fundo de Publicações da Faculdades EST, em parceria com a Editora Sinodal. 

Jornalista responsável: Mariana Bastian Tramontini

 


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