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Proclama Utópica


Proclama Utópica

 

 

PROCLAMA UTÓPICA

Nos 70 anos da Faculdades EST

 

Era março de 1946.

O mundo saía da desgraça da Segunda Guerra.

A Europa fora destruída, milhões de mortos,

atrocidades inimagináveis,

campos de concentração, vítimas incineradas,

milhares de valas-comum para mortos anônimos,

milhões de viúvas e crianças órfãs.

Uma nova esperança precisava se instaurar no mundo

depois do caos da guerra e do fascismo mortal.

No Brasil, também a ditadura de Vargas chegara ao fim.

Novo clima político se abria à reconstrução

de uma democracia frágil, sem raízes.

A Igreja Evangélica no RS sofrera com a guerra

e tomou uma decisão histórica:

preparar novas lideranças pastorais

aqui mesmo na terra de adoção, agora terra nossa.

Surge em março a Escola de Teologia,

Modesta e frágil, quase escondida em meio às árvores do Morro do Espelho,

mas desde logo com visão e compromisso,

decidida a realizar sua missão histórica.

Nossos antepassados sonharam com uma nova igreja

e apostaram que ela poderia ser fruto de novas gerações

formadas na terra brasileira e em diálogo com seu povo e cultura.

Ousadia do Espírito? Quem poderá dizer?

Certo é que a aposta não foi fácil.

Uma igreja formada majoritariamente por teuto-brasileiros

buscava enraizar-se mais ainda.

Demorou para que o diálogo com a cultura e seu povo mestiço

se impusesse como linha mestra.

Somente depois da guerra o movimento

pela nacionalização do estudo da teologia consegue

fazer valer o idioma nacional nos estudos teológicos.

Tal mudança, porém, não foi em vão.

Um novo ar se instaura no Morro e gradativamente

novos hábitos se fazem presentes,

maior abertura ao contexto e, logo,

o posicionamento firme contra a Ditadura que se abateu

sobre a realidade brasileira noutro março,

este no ano de 1964.

A já agora Faculdade de Teologia sempre primou por ser

espaço de debate e de pensamento crítico.

Isto foi ampliado durante os 20 anos

de obscurantismo que se impôs ao Brasil

e cujas consequências sentimos até os dias de hoje

com ondas de intolerância, ódio social e autoritarismo tacanho.

Afortunadamente, a Faculdade de Teologia ficou conhecida

no país e no exterior como lugar de liberdade de pensamento,

de busca de enraizamento na cultura brasileira,

de espaço para o debate, a oração e a ousadia fraterna

baseadas na fé e no amor compassivo.

Com o predomínio da língua portuguesa no estudo teológico,

uma nova mentalidade se instaurou e ganhou espaço,

não sem altos e baixos, é verdade.

Os anos de 1970 trazem ao esforço acadêmico

crescente número de docentes brasileiros.

E esta realidade se inscreve na nova geração de teólogos e teólogas

que vão se preparando para o ministério, hoje diversificado.

Aquela ousadia de aceitar mulheres no estudo teológico

que começara ainda nos anos 1950, se firma nessa época

e se torna uma marca desta Escola no futuro.

Os anos de 1980 trazem uma grande novidade:

a modesta Faculdade de Teologia se torna um

centro de pós-graduação e surge a Escola Superior de Teologia.

Novamente uma aposta carregada de visão

e coragem baseada na fé e no amor que se faz história

na vida de pessoas, comunidades e povos.

A pós-graduação se firma como centro de reflexão

cada vez mais inserido na realidade latino-americana

e referência no país e no exterior.

Mas este desdobramento teve seu preço.

A abertura para um ensino teológico plural trouxe

dissonâncias na relação com a Igreja Evangélica de Confissão Luterana.

O estudantado se tornou diverso, trazendo para as salas de aula

a diversidade das igrejas presentes na sociedade e novas expectativas.

Como atender a demandas tão complexas?

Ainda buscamos o tom e a embocadura que sirva a uns e outros,

lutando para sobreviver num mercado educacional

sempre mais competitivo e sem volta,

tropeçando muitas vezes, mudando para acertar o passo com a história.

Os desafios se ampliam, a luta por sustentabilidade não mede esforços.

E chegamos aos anos de 1990 com reivindicações

ainda mais ousadas e pertinentes.

O fortalecimento da perspectiva da teologia latino-americana de libertação

exige que novas questões e novos atores entrem em cena:

nos anos de 1980 e 1990 o aconselhamento pastoral se tornou

necessidade comunitária e de pesquisa.

A renovação dos estudos bíblicos abriu para a releitura da palavra de Deus

em chave popular, crítica e libertadora.

A história da igreja é renovada pela perspectiva dos pobres e dos desvalidos,

normalmente silenciados nos documentos e na vida.

CEHILA – Comissão Ecumênica de História da Igreja na América Latina

ganha espaço entre nossos docentes.

A ética protestante questiona a postura individualista

e assume o desafio de repensar a fé

na busca da justiça social, da paz e da integridade da criação.

A releitura da teologia de Lutero abre novas perspectivas

com o olhar latino-americano e dialoga com as lutas por libertação.

E a teologia da graça e da Cruz – marcas da Reforma Luterana –

é redescoberta como tesouro que liberta a igreja e as comunidades de fé

de seus equívocos e traições

para a diaconia transformadora.

A questão afro-brasileira ganha espaço e ajuda a abrir as portas da igreja

para o povo negro com docentes negros comprometidos

com uma nova maneira de ser igreja e viver a fé.

Da mesma forma, os povos indígenas encontram na EST uma aliada

a partir da parceria com o COMIN

 – Conselho de Missão entre e com Povos Indígenas

e o CPQI – Centro de Pesquisa da Questão Indígena,

cujo acervo inestimável é assumido pelo Biblioteca.

Mas são as mulheres que – possivelmente – trazem a grande novidade

ao lutarem pela Cátedra de Teologia Feminista

e por uma nova leitura da teologia, da vida e do sentido da existência

para mulheres e homens, jovens e gente mais idosa.

A EST se torna referência nesses estudos

e faz deslanchar outra forma de fazer teologia

ao dignificar a participação e o empoderamento

das mulheres e outros grupos na igreja e na sociedade.

Ainda assim deve permanentemente fazer a autocrítica

ao não assumir a prática transformadora que proclama em suas teses.

Os anos de 2000 não apenas nos fazem chegar ao novo milênio.

Pois é de desafios que se trata e diante deles

a agora Faculdades EST precisa se reconstruir a cada novo momento,

revendo posturas, olhando pra frente, sem vacilar.

Nos dias de hoje ela representa não só a teologia que a identifica.

Ao esforço de preparar profissionais competentes para a igreja e a sociedade,

a música, a formação profissional para a enfermagem e a saúde,

chegando aos cursos de Musicoterapia e Licenciatura em Música

dão conta da pertinência de seu projeto e

da saudável loucura de ser propositiva.

Uma modesta escola confessional no sul do país

 assumiu – decidida e publicamente –

o ideal ecumênico voltado à luta pela vida.

Aliás, este ideal faz parte de sua história desde os inícios.

Saúde, música e evangelho são como faces de um projeto arriscado

de inserção na vida de nossa gente, do país e da América Latina.

Como servir melhor à liberdade a partir da educação para a autonomia?

Como desafiar pessoas e comunidades a arregaçar as mangas

para mudar a sociedade e a nós mesmos?

Como colaborar para melhor compreender este país,

seu povo, sua história, sua fé cambiante e trôpega,

como acontece também na academia?

Como ser sinal de um compromisso que supera fronteiras

eclesiásticas, nacionais, intelectuais, morais, éticas

para melhor servir ao amor e à misericórdia?

Como seguir ao Cristo que se adianta na história

ao rumar às Galileias deste mundo complexo em que vivemos?

Como manter o projeto sem trair a confiança das pessoas?

Por isto a Faculdades EST se renova a cada passo,

cada um mais exigente que o outro,

mas jamais escusado, ignorado.

Nunca no mesmo lugar, apesar de situada neste Morro que espelha diversidade,

esta instituição é um projeto utópico

que encontrou seu topos, seu lugar aqui mesmo,

ainda que necessite, para se viabilizar, abrir-se

permanentemente a novos lugares, a outros atores e atrizes,

na incessante aposta de que a liberdade é sonho bom,

que o amor é libertador,

que a Paz só pode ser fruto da Justiça

irmanada com a Esperança da Graça maior

de um Deus que não recusou ser crucificado

para que a ressurreição fosse a vitória

da vida sobre a morte.

Shalom, Salam, a Paz!

 

Roberto E. Zwetsch

São Leopoldo, 17 de abril de 2016.


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