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Noções de impureza representam campo fértil para a emergência de ideologias racistas


Noções de impureza representam campo fértil para a emergência de ideologias racistas

Na quinta, 7 de março, o pastor e deputado federal Marco Feliciano, autor de frases racistas e homofóbicas nas redes sociais, foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

Reitor da Faculdades EST, o Prof. Dr. Oneide disse que, ao longo da história, noções de impureza foram rechaçadas por Jesus e representam campo fértil para o surgimento de ideologias racistas. “O nazismo queria formar uma raça pura”, enfatizou.

Na avaliação do reitor, a eleição de Feliciano revela o crescimento e a influência da Bancada Evangélica, embora pesquisas tenham indicado que, cada vez menos, os fieis têm seguido a indicação de pastores no momento do voto. “Cada vez menos o rebanho escuta a voz do seu pastor na política e isso é bom para a democracia e a garantia do Estado laico”, afirmou.

Apesar das declarações do pastor da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, Bobsin não acredita que a presidência desta comissão represente um retrocesso para a garantia dos direitos humanos no país, pois esses movimentos estão fortemente constituídos e "não há recuos”.

Leia a entrevista na íntegra:

A eleição do pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara incorre no risco de transformar as discussões numa disputa religiosa?

BOBSIN: A eleição do pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias é um sinal de que a Banca Evangélica está emplacando suas estratégias. Comenta-se que são aproximadamente 80 deputados e senadores que formam esta bancada. É formada por políticos de vários partidos. Logo, é pluripartidária, mas certamente a diversidade partidária é arrefecida por uma “identidade evangélica” pouco homogenia como as bases de suas igrejas. As últimas eleições presidenciais revelaram que os candidatos à presidência do país fizeram acordos com lideranças religiosas que se arvoram falar em nome dos mais de 42 milhões de evangélicos. Sabemos que esta massa de evangélico, tão conflitiva e diversificada internamente, também o é na política. A política está atravessada pela religião, mas não a determina como os religiosos querem, felizmente. O eleitor evangélico ou de outra identificação religiosa não tem seguido seus pastores na política. Pesquisas recentes mostram a autonomia dos fiéis diante de seus líderes religiosos. Cada vez menos, o rebanho escuta a voz do seu pastor na política e isso é bom para a democracia e a garantia do Estado laico.
      
O que explicaria o aval do Partido dos Trabalhadores, que historicamente comandou a comissão, à eleição de Feliciano?

BOBSIN: Quem sofre a contradição de ser Governo é o Partido dos Trabalhadores. Por conta da necessidade de uma maioria no congresso e de compromissos forçados pela busca de votos no meio evangélico durante a campanha, a presidente Dilma foi levada a assumir compromissos que vão de encontro às propostas históricas do PT.  Da mesma forma, o pastor e deputado Marco Feliciano, como representante de evangélicos, deverá seguir as leis que protegem a igualdade étnico-racial e faz avançar o respeito aos direitos das minorias, que não são tão minorias assim. Certamente as posições do referido pastor não farão retroceder as conquistas nesta área, mas há retrocesso político.


A eleição de um pastor evangélico, autor de frases nitidamente racistas e preconceituosas, representa um retrocesso na legitimação dos direitos humanos no país?

BOBSIN: Vejo vários movimentos se articulando para destituí-lo da presidência. Também conheço o debate no meio de grandes igrejas evangélicas que se mostram divididas sobre estes assuntos. Setores delas avançam no sentido de não interferir na legislação, mas defendem seus posicionamentos contrários às relações homoafetivas e certas visões sobre o aborto no espaço interno. Não vejo que a presidência desta comissão represente um retrocesso para os direitos humanos, pois os movimentos de direitos humanos estão fortemente constituídos, e não há recuos. Quem não tem legitimidade para a função é o pastor Marco Feliciano em razão de seus posicionamentos homofóbicos e racistas.

Gostaria que a relação entre estado e religião fosse republicana, mas não é. Espaços são ocupados por este tipo de liderança religiosa e política em parte por causa da ausência do Estado na vida das maiorias. Embora o “mundo evangélico” tenha atraído camadas sociais distintas, sua presença é forte nas camadas pobres, onde ressignifica a vida destroçada de milhões de brasileiros. Através desta presença religiosa, milhões de brasileiros fazem contato com uma política que até pouco tempo os ignorou. No entanto cabe perguntar: em que certos políticos de origem evangélica são diferentes, por exemplo, da bancada ruralista ou daqueles partidos que defendem um Estado mínimo para as maiorias e máximo para as elites? Lamento que políticos evangélicos e suas bases se deixem levar por políticas que contrariam, por exemplo, os programas sociais do Governo Federal. Diante de uma discussão sobre homofobia ou aborto, o povo evangélico na base opta por uma política que lhe favorece no cotidiano, como o programa Bolsa Família. A eleição de Haddad em São Paulo mostra isso. Aquele que se colocou como candidato dos evangélicos não foi ao segundo turno. Os movimentos de direitos humanos de mulheres, negros, homossexuais e outras minorias precisam conquistar novos espaços. É preciso aprender com as políticas sociais do Governo Federal. Muitos líderes evangélicos falam em seu nome ou de minorias. São facilmente cooptados por políticos, mas a base das igrejas nem sempre segue os seus pastores.

Ao dizer que os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé, o deputado Marco Feliciano está distorcendo os textos bíblicos?

BOBSIN: Certamente o pastor Marco repete uma visão teológica altamente ideologizada. Pode estar se referindo ao relato de Gênesis 9, onde os filhos veem o seu pai Noé dormindo nu por causa de uma bebedeira. Há traduções que dizem que um dos filhos aproveitou-se do pai bêbado para uma relação homossexual. Mas os filhos Sem e Jafé não olham a nudez do pai. Diferente aconteceu com Cam, que viu a nudez de seu pai, e por isto foi por ele amaldiçoado. Deduzir desta história que os negros são descendentes de Cam é forçar o texto a dizer o que ele não diz.

O antropólogo Peter Fry descobriu algo semelhante numa pesquisa sobre expansão dos evangélicos em Moçambique. O líder norte-americano de uma igreja pentecostal tentou convencer o antropólogo de que a África é pobre porque os africanos são descendentes da primeira criação dos homens. Deus criou duas vezes os seres humanos. Conta o mito que um negro chegou com uma criança no colo e Eva perguntou como fazer algo tão lindo. O negro, fazendo às vezes da cobra e cheio de sensualidade, “explicou” tudo à Eva. Assim nasceram os negros, filhos de uma maldição. Por isto há tanta inveja, intriga e feitiço na África. Deus fechou os olhos dos negros para não ver a riqueza, por exemplo, do subsolo africano. Os brancos europeus desenvolvidos, por sua vez, são filhos da segunda criação; filhos de Adão e Eva.

Cabe ressaltar para quem não conhece os estudos exegéticos dos primeiros capítulos da Bíblia que há dois relatos distintos sobre a criação do homem e da Mulher. São de épocas distintas. O primeiro relato encontra-se em Gênesis 1 e 2, 4a. O segundo compreende o capítulo 2, 4b-25. Na opinião do bispo acima referido há duas criações. Assim ele justifica a condição da África e dos africanos e seus descendentes e a situação dos brancos desenvolvidos. Mais do que um mito, é uma exegese ideologizada. Pode ser que estas interpretações percorram o mundo evangélico brasileiro.

Nem a justificativa de que os negros são filhos amaldiçoadas de Cam, nem o mito ideologizado encontram sustentação na exegese bíblica. Tais textos não justificam uma ideologia racista. Ao contrário, os Direitos Humanos encontram em Atos dos Apóstolos 10, 28, numa mensagem antiga que as igrejas esqueceram: Mas Deus acaba de mostrar-me que a nenhum homem se deve chamar de profano ou impuro. Noções de impureza, tão rechaçadas por Jesus, criam campos férteis para ideologias racistas. O nazismo queria formar uma raça pura.

Quando estive numa pequena cidade alemã há três anos vi cartazes nas paredes de prédios convocando as pessoas para se reunirem a fim de conter as ações de neonazistas. Para quem busca a pureza, negros, homossexuais, lésbicas e outras minorias não são grupos fora de lugar, como um sapado em cima de uma mesa. Dizem mais: não há lugar para estas minorias. Isso aprendi de Bauman em seu livro O mal-estar da pós-modernidade.

Lamentavelmente corre-se o perigo de se abrir espaços para posições fundamentalistas. Mas também é igualmente perigoso imputar aos evangélicos brasileiros a pecha de racistas e homofóbicos. A estratégia dos diversos movimentos de direitos humanos não precisa jogar fora a criança com a água. Discernir é necessário.

 

Jornalista responsável: Micael Vier Behs


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