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Comunidade cristã no século 21: o desafio da tradução!


Comunidade cristã no século 21: o desafio da tradução!

            A Conferência Internacional realizada em Bochum, convocada pelo Centro Pastoral de Pesquisas da Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Ruhr, Alemanha – de forma ousada – escolheu discutir o tema da consciência batismal e liderança a partir de impulsos da igreja cristã de diferentes países. Ousadia que brota de uma sociedade altamente secularizada na qual as pessoas não mais sabem o que é o batismo e por que razão participar de uma comunidade cristã. Desafio enorme para pessoas cristãs que, todavia, vivem sua fé e a desejam testemunhar com coragem, a partir de uma mística de olhos abertos, como formulou o teólogo Johann Baptist Metz.

            Ao final de três dias de intensos debates, conferências, workshops, meditações, diálogo entre as mais de 300 pessoas presentes vindas de dioceses católicas alemãs e de países vizinhos, mas também do âmbito internacional, com conferencistas das Filipinas, dos EUA, da França, da África do Sul e do Brasil, que desafios poderiam sintetizar o que se pôde aprender e que nos remetem ao futuro da presença cristã no mundo?

            O Dr. Christian Hennecke, do Seminário de Hildesheim, afirmou na última sessão que vivemos num tempo de mudanças radicais. Ele se perguntava se não estaríamos diante de um novo kairós pentecostal. As discussões que surgiram nessa Conferência nos colocam diante de uma agenda que nos desafia a aprender com a situação. Tal aprendizado nos fará compreender melhor o mundo em que vivemos e com quem partilhamos a vida e as esperanças de um futuro digno para as pessoas e o meio ambiente. Aprender a aprender, eu acrescentaria. A partir do tema geral, sete questões sobressaem nessa busca:

1)                 O batismo cristão é uma fonte que se renova a cada dia na vida das pessoas de fé. Lutero no século 16 escreveu que o batismo é um morrer diário com Cristo para com ele renascer para uma nova vida de fé, liberdade e amor. Vivenciar o batismo para além do aspecto ritual é recuperar hoje o seu dinamismo como processo de crescimento na fé e na vida. Juan Luis Segundo, teólogo uruguaio, trabalhou este aspecto com grupos de reflexão em Montevideo nos anos de 1970 e denominou esta teologia pastoral que nasce da base como teologia aberta para o leigo adulto. Trata-se de amadurecer para o diálogo com o mundo. O testemunho cristão hoje supõe este tipo de fé: madura, espontânea, dialogal, firmemente alicerçada no evangelho e solidária com as dores do mundo.

2)                 Retomar o sentido da palavra communio ou comunhão nos leva à convivência com as pessoas que nos cercam, sejam elas pessoas de fé ou secularizadas. Aqui a atualidade do batismo como processo de crescimento na fé é testada. Conversão ao caminho de Cristo não será uma mera experiência emocional (que é importante, sem dúvida), mas um assumir diário desse desafio: viver em comunhão com o outro, compartilhando alegrias, dramas e esperanças sob a luz de Cristo. Comunhão como compromisso de vida e em solidariedade com as pessoas, o que desafia cada qual para sair de si, abrindo mão, às vezes, dos próprios interesses pessoais para que a vida desabroche sem barreiras.

3)                 Trata-se também de apurar nossa percepção do tempo, da época em que vivemos. Superar as relações meramente instrumentais, objetivas, superficiais e dar tempo para uma boa conversa (Palaver, em alemão), espontânea, fraterna, disposta a escutar e compartilhar com as pessoas a sua vida, desejos, alegrias e frustrações. Esta característica da presença cristã nos dias de hoje não é óbvia. Também as pessoas de fé vivem correndo atrás de seus compromissos, objetivos e desejos, ficando irritadas quando alguém se interpõe em seu caminho. Testemunho e abertura para com as pessoas permitiria uma experiência espiritual transformadora. Pois é o Espírito de Cristo que nos habilita para o contato, a convivência, a comunhão, a partilha de vida, a solidariedade, a busca por um mundo mais humano. Estas experiências se tornam  extraordinárias no mundo de hoje, marcado por forte individualismo e narcisismo.

4)                 Nas igrejas cristãs europeias vive-se hoje uma grande crise na teologia do ministério cristão (Theologie des Amtes, em alemão). O que vem a ser este ministério? Numa compreensão formal, é o exercício de um cargo, função ou tarefa em uma instituição bem organizada. Ocorre que esta compreensão entrou em colapso no mundo secularizado. As pessoas não mais se interessam por aproximar-se da vida da igreja a partir do exercício formal da vida cristã e muito menos de uma pessoa que exerce seu ministério como se fosse um funcionário público. É urgente superar o caos do exercício do ministério cristão. Ora, isto significa redefinir este ministério para incluir nele todo o povo cristão, toda a pessoa de fé que se compreende participante da comunidade de fé e do seu testemunho na sociedade. O ministério cristão precisa ser vivido como serviço, de forma inclusiva, compartilhada e comprometida com a sociedade e sua realidade vivencial. Em verdade, na igreja cristã não deveria existir a pessoa leiga. Pois os carismas do Espírito são dados a todas as pessoas, evidentemente, na diversidade dos dons de cada qual.

5)                 Este desafio coloca em questão o exercício do ministério pastoral ordenado nas igrejas cristãs, na verdade, os vários ministérios ordenados, exercidos, normalmente, por pessoas especialmente preparadas e remuneradas para tal profissão. Em alemão há uma grande diferença entre a palavra Amt e a palavra Dienst, ambas relacionadas ao debate atual sobre o ministério. Amt denota mais especificamente o cargo ou função de uma pessoa, quase uma forma burocrática de seu exercício. Dienst, porém, conota serviço atencioso, algo mais pessoal, fraternal ou sosoral. O desafio para as igrejas cristãs no mundo atual é recuperar justamente esta dimensão do serviço como central para o ministério da igreja, que será sempre missionário e profético, pois existe para manifestar as duas dimensões do amor de Deus pelas pessoas: misericórdia e justiça. Aqui novos caminhos deverão ser abertos já agora e no futuro.

6)                 Há uma compreensão da presença e do ministério de Cristo que carece de uma nova percepção na teologia pastoral e na vida das igrejas. Cristo é o bom pastor que se torna cordeiro de Deus, aquele que dá a vida por seu povo. Esta imagem bíblica questiona, por exemplo, a figura do Cristo monarca celestial, rei vitorioso, expressão de um Poder majestoso. Cada vez mais parece claro que temos de recuperar a figura do profeta Isaías: Cristo é o servo sofredor, aquele que sofre e oferece sua vida pelo seu povo, por aquelas pessoas que ele ama. Esta dimensão pastoral do ministério de Cristo parece ter ficado, por muito tempo, ofuscada pela figura imponente da igreja cristã, por sua riqueza, por seu lugar central no exercício do poder na sociedade. Uma vez que a igreja cristã hoje foi deslocada do centro para a periferia do sistema, tal desvio comprometeu a missão do testemunho do evangelho, da boa notícia do amor de Deus e da liberdade para uma nova vida. Uma igreja cristã é uma comunidade que tanto acolhe as pessoas em suas necessidades como também vai ao encontro das pessoas em seus  sofrimentos, aspirações e demandas por dignidade e justiça.

7)                 Como decorrência dessa compreensão do ministério cristão há que aprender a lidar com a fragilidade da vida cristã e da própria fé. Enquanto pessoas de fé, não somos castelos inexpugnáveis e autosuficientes. Pelo contrário, pessoas cristãs sofrem e gemem como qualquer pessoa, por isto podem compreender as pessoas em suas dores e carências, podem solidarizar-se com elas e semear esperança no meio onde vivem. Mas a vivência da fé e do amor mútuo não tem receitas. Ela necessita ser contextualizada a cada nova situação, em cada momento da história. Por isto na comunhão cristã o debate, a busca em conjunto de caminhos e propostas de testemunho, de serviço ao mundo e de vivências diversificadas será uma constante. O intercâmbio e o aprendizado mútuo é um valor para o cristianismo contemporâneo, até porque hoje não há mais modelos prontos a serem exportados. Todas as igrejas e comunidades cristãs que levam a sério seu compromisso missionário compreendem que é necessário superar divisões e visões estreitas, abrir-se para novas perspectivas e vivências para que o testemunho seja mais coerente e eficaz, tornando-se fator transformador num mundo em crise e sumamente injusto, desigual e violento (Romanos 12,1s).

Em resumo, os questionamentos que a situação atual traz para as igrejas e o exercício dos diferentes ministérios (por exemplo, diaconal, catequético, missionário, pastoral) questionam as estruturas hierárquicas e extremamente fechadas que ainda prevalecem em muitos lugares. Uma das características mais impressionantes que as igrejas pentecostais nos ensinam é a sua compreensão e prática ministerial flexível e inclusiva. Cada pessoa da comunidade de fé se encarrega do ser testemunha do evangelho ali onde vive e trabalha. É esta compreensão que permite a presença dessas igrejas em todos os lugares da sociedade, na América Latina, especialmente nas periferias e entre comunidades pobres. Claro que há problemas a superar como a fragmentação e o personalismo de líderes carismáticos que tendem a concentrar o poder da igreja em suas mãos. Ainda assim, fará bem às igrejas históricas entrar em diálogo com tais comunidades de fé no sentido do aprendizado mútuo, partilha de visões e de carismas, em vista uma nova compreensão da igreja no mundo de hoje. Isto tudo significa que é urgente aprender e exercitar o dom da tradução, que supõe compreender tanto o sentido do evangelho de Cristo, sua oferta de salvação, libertação e nova vida, quanto o mundo que nos rodeia e no qual estamos metidos até o último fio dos cabelos. Tal compreensão irá exigir capacidade para interpretar os sinais dos tempos e os sinais dos lugares de modo que saibamos colocar em prática o evangelho de formas novas e inspiradoras para as pessoas que Deus ama e quer salvar. Por uma igreja participativa e inclusiva, poderia ser um bom lema a ser assumido já agora e no futuro.

Relato enviado pelo Prof. Dr. Roberto E. Zwetsch (19/06/2015).


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